terça-feira, 28 de julho de 2015

Desígnios

“Bem conheço os desígnios que mantenho para convosco - oráculo do Senhor -, desígnios de prosperidade e não de calamidade, de vos garantir um futuro e uma esperança. Invocar-me-eis e vireis suplicar-me, e eu vos atenderei. Procurar-me-eis e me haveis de encontrar, porque de todo o coração me fostes buscar.” (Jeremias 29, 11-13)
Após encerrar uma semana muito intensa, de muitos questionamentos, desafios e algumas decisões, durante a missa dominical o Senhor me fazia lembrar da primeira parte do versículo que citei acima. Comecei a trazer à memória todas as inquietações da semana e algumas outras situações. Pude então compreender que eu não estava enfrentando tudo sozinho, que todo o cansaço acumulado até a sexta-feira não era resultado de uma “batalha individual”, pelo contrário, era uma “resposta palpável” de um pedido feito a Deus, de uma decisão pela submissão aos planos dEle.

Sou como você irmão (ã), estamos na busca, temos nossos defeitos e qualidades, vivenciamos uma luta diária e por nossas forças apenas não conseguiremos muito êxito. Então como fazer? Qual o caminho para não sucumbir no combate?O Profeta Isaías no capítulo 55, versículo 6 nos dá uma grande alternativa: “Buscai o Senhor, já que Ele se deixa encontrar; invocai-o, já que está perto.” 
Daí você pode me dizer: - mas eu já O tenho buscado e continuo buscando!
Eu te responderei: - Eu também estou na mesma busca!

Pois bem, que bom que estamos na mesma busca, que podemos ser suporte um para o outro e para tantos outros irmãos e irmãs que partilham da mesma busca. Mas será que apenas buscar é o bastante? Afinal, somos seres da falta, pessoas incompletas, logo, vivemos em constante busca. Será que de fato buscamos a Deus com todas as consequências desta busca ou estamos buscando as coisas que imaginamos que vamos “conseguir mais fácil” se estivermos “próximos de Deus”?

Já se questionou sobre o que Deus quer para a tua vida? Já se perguntou o porquê de algumas inquietações? Chegou a se perguntar se é isso mesmo o que Ele quer para ti? Você tem a coragem de submeter a tua vontade e vida à vontade de Deus?
Nos acostumamos a nos favorecer em relação aos planos de Deus, de forma que os nossos sonhos, nossos critérios e exigência tomam o lugar do que, de fato, está reservado para nós, do que é designío dEle. O profeta vai dizer: “...desígnios de prosperidade e não de calamidade, de vos garantir um futuro e uma esperança...”. Por que então não conseguimos tomar posse desses desígnios?

Nossas concepções de liberdade e felicidade encontram-se distantes da noção de submissão, confiança e obediência; o Amor deixou de ser a nossa bússola em um mundo de tantos descaminhos. Nos acostumamos com a figura de um amor que pede antes de dar, que se entrega apenas à medida que recebe, que se submete apenas para obter vantagem ou para evitar a perda, que confia apenas em si, vamos nos enchendo de autossuficiência e nos afastando cada vez mais dos nossos desígnios. Buscamos o verdadeiro Amor e este é um passo de grande coragem, que nos exige confiança e submissão. Em Deus aprendemos que fazer-nos submissos, ao contrário do que vemos no mundo, não é sinônimo de inferioridade ou menosprezo, mas é sinal de uma entrega total ao Amor que nos promete um futuro e uma esperança. Que o Espírito Santo nos conduza e fortaleça todos os dias, para que com ânimo renovado, busquemos cada dia mais realizar em nossas vidas os sonhos que Deus sonhou para nós.

sábado, 25 de julho de 2015

A cultura do descartável

                                             

         Papa Francisco, no livro Igreja da Misericórdia e em alguns trechos da Encíclica Laudato Si, utilizou a expressão ‘’cultura do descartável’’ para nos alertar sobre alguns comportamentos que têm feito parte da sociedade moderna, no que concerne a diferentes aspectos, tais como a ecologia e as relações humanas, sejam elas quais forem. De fato, a respeito do último fator,  é fácil presenciar pessoas ‘’descartando’’ pessoas, quando não há mais uma suposta ‘’utilidade.’’ Percebe-se isso quando alguém não é mais útil no trabalho, num negócio, numa troca de favores e, infelizmente, numa relação afetiva. Esta tende a ser facilmente massacrada pelas imposições da mídia, devido ao culto exacerbado do corpo e dos possíveis prazeres que este pode oferecer. Não se escolhe mais um(a) parceiro(a) pelo olhar, pelo conteúdo, pela inteligência, pelo sorriso e pelas boas qualidades. Não. Escolhe-se a pessoa pela qual –supostamente- passar-se-á o resto da vida fazendo uma análise do corpo físico. O que for mais ‘’sarado’’ serve.
         Ora, sem hipocrisias, obviamente a atração física é importante. Mas ela não pode sobrepor à atração das almas. Quando esta ocorre, automaticamente cria-se um encantamento que une dois seres que se atraem, percebem-se lindos, porque são filhos de Deus. E, todos nós, filhos de Deus, somos lindos, cada qual com suas diferenças físicas.      
         A atração das almas impede que olhemos somente o exterior, tão cultuado pela mídia, pelas novelas, pelos programas televisivos. A mesma mídia que ensina nossas crianças e adolescentes que bonita é a moça de glúteos fartos e atraente é o rapaz com barriga escultural. A mesma mídia que tem nos imposto que o legal é descartar, que tem repetido –direta ou indiretamente- nas nossas mentes alguns questionamentos: se a namorada engordou, se o marido está ficando calvo, por que, afinal, tenho que continuar com ela? Por que tenho que continuar com ele?      
         Sempre sábio esse Papa. Infelizmente, é o que tem acontecido. E nós temos achado bonito cultuar o que é exteriormente belo. Que possamos parar para refletir que todos somos belos, somos lindos, não importa se baixos ou altos, magros ou gordos, negros ou brancos. Que nossos corpos são templos do Espírito Santo e devem ser amados por nós e por outros. Que saibamos descartar apenas as ideias abusivas sobre corpos perfeitos e padrões a serem seguidos e não mais as pessoas, porque as pessoas foram criadas por Deus para serem amadas, à Sua imagem e semelhança, e não para serem tratadas como um objeto, que eu uso agora e descarto pois já não me serve mais. Que os solteiros saibam esperar com fé e alegria aquele(a) que irá amá-lo(a) para sempre, sem descartes. E que os que já possuem alguém, saibam amar ainda mais, buscando beleza nessa pessoa, mesmo que os anos passem, mesmo que a barriga cresça, mesmo que o cabelo perca a cor. Afinal de contas, o amor é muito mais que isso tudo.   
          

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Homem segundo o coração de Deus



"Pediram então um rei, e Deus lhes deu, por quarenta anos, Saul, filho de Cis, da tribo de Benjamim. Depois, Deus o rejeitou e mandou-lhes Davi como rei, de quem deu este testemunho: Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará todas as minhas vontades."
 
Atos 13, 21-22
 
 
 
Deus fez o homem a sua imagem e semelhança. Assim fomos criados. Deus delegou ao homem a autoridade sobre todas as coisas. Assim está escrito.

Quando Saul se desviou dos propósitos de Deus, o próprio Senhor foi buscar um homem segundo o seu coração para governar o seu povo. E como era Davi? Um homem perfeito, forte, viril, rico? Não! Davi era um homem com suas limitações, seus defeitos. Mas uma coisa ele tinha que os diferenciou de todos os outros: Davi se decidiu por fazer a vontade de Deus. Davi assumiu integralmente a hombridade conferida a nós homens por Deus.

Segundo o dicionário, a hombridade pode ser definida como retidão de caráter, dignidade, honradez (Dicionário Online). Essa característica é, até em relação a etimologia da palavra (vem do espanhol hombredad, que significa a qualidade de ser homem), uma característica masculina.

Hoje a sociedade vive uma crise. Mais do que a financeira, a crise que mais amedronta é a crise de valores. Gerações que tem se baseado no "eu". Naquilo que é bom pra mim, e pra já. Consumismo para esconder o vazio interno, depravação sexual para esconder as carências, relações virtuais para não se expor ao contato, a intimidade, ao trabalho de construir relações. E assim a essência do ser humano vai se perdendo. Temos deixado de ser homens e mulheres e passando a ser espécie humana macho e fêmea. Tal quais espécimes, nossas vontades e só elas nos norteiam. Em alguns casos, pessoas chegaram ao ponto de não mais ter sequer controle sobre suas vontades.

Imagino se todos homens da história tivessem seguido suas vontades. Me deparo com esses textos:

"Pai, se queres, afasta de mim este cálice; entretanto, não seja feita a minha vontade, mas o que Tu desejas!” Lucas 22,42

"Porém, quando prego o evangelho, não vejo como me orgulhar, pois a mim é imposta a obrigação de proclamar. Ai de mim se não anunciar o Evangelho!" I Coríntios 9, 17

É óbvio que o nosso Senhor transcendeu a realidade humana, mas também sofreu as dores e angústias de carregar a responsabilidade de sozinho sofrer e transportar o peso da salvação de todos em suas costas. Mas Ele assumiu o medo e decidiu-se por fazer a vontade do Pai. Paulo, homem que perseguia os cristãos, ao fazer o encontro com o Cristo entendeu que sobre ele havia a responsabilidade de apregoar o evangelho. Mas do que a vontade, havia a responsabilidade. "Ai de mim se eu não pregar o evangelho!"

Hoje, nós homens precisamos reassumir nossas responsabilidades. Deixar de lado nossas vontades e fazer aquilo que precisa ser feito. Pais precisam participar da educação dos seus filhos. Ser para eles referência de retidão, de responsabilidade, de proteção e providência. Um pai que assume a responsabilidade de criar seus filhos, certamente não terá que visita-los em penitenciárias, ou arrumar advogados para livra-los de crimes hediondos.

Filhos que assumirem sua responsabilidade de honrar os pais e cuidar deles, certamente não chorará um choro de culpa, mas sim de saudade quando Deus levar seus pais. Namorados que aceitam o desafio de ser guardião da castidade e pureza de suas namoradas, que se dispõem a doação de seus dias a entender, ouvir e ser suporte, certamente terão um lar onde habitará o amor verdadeiro: livre, total, fiel e fecundo.

É preciso voltar a nossa essência e assumir a nossa responsabilidade. Assumir a autoridade que nos foi delegada, não no sentido de mandar em tudo e em todos, mas de saber que somos nós quem dominamos nossas vontades e a partir daí recuperar as forças para ser base. Precisamos reassumir nossa hombridade. Precisamos perpetuar isso nas gerações. Precisamos voltar a ser homens segundo o coração de Deus

quinta-feira, 16 de julho de 2015

"Toca o meu coração, Eu Sou a tua Paz..."



A música nos remete ao discípulo Tomé e à  passagem bíblica que encontra-se no Evangelho de João  (20, 19-31). Caso você não consiga assistir o vídeo, a letra da música está disponível ao fim do post. 


Falar sobre Tomé implica de certa forma numa instantânea viagem à minha historia. Mas vamos começar falando sobre Tomé, certo?! Por conhecimento básico ou só de "ouvir dizer", conseguimos falar um pouco sobre ele. É um dos doze discípulos escolhidos por Jesus (um fato interessante, que o evangelista Marcos nos traz é que "Ele chamou os que ele quis"), participou de forma muito próxima da Sua vida pública, presenciou seus milagres e pôde ter experiências de proximidade com o Senhor. Acredito que ao ler o nome de Tomé, automaticamente sua memória te levou àquela passagem onde Jesus o questiona acerca de sua fé. Mas através dele, o Senhor vem nos questionar hoje, acerca da nossa fé.

Desde que me conheço por gente, estou envolvido com movimentos na Igreja e graças a Deus por isso! Fiz muitos amigos, vivenciei muitas coisas, vi muitas coisas inexplicáveis à compreensão humana, tive muitas experiências com a misericórdia e o amor de Deus e continuo caminhando, buscando estar mais atento e dócil à voz dEle. Mas por muitas vezes tentei fazer as coisas à minha maneira, segundo o que era mais conveniente a mim, priorizando meus anseios, necessidades e verdades. A crença que por ser uma boa pessoa, por estar envolvido "nas coisas da Igreja", por ser um cara legal, me fez pensar muitas vezes que Deus tinha a "obrigação" de me atender do jeito e na hora que eu achasse mais conveniente. É justamente nesse ponto que os impasses começam, as dúvidas surgem, nos desgastamos sem necessidade, investimos em relacionamentos sem futuro, nossa fé é substituída pela necessidade e por aquilo que julgamos merecer.

Pois como Tomé, não nos contentamos com as vozes que nos dizem: "Vimos o Senhor!", nem sequer com as graças que vemos acontecer ao nosso redor cotidianamente. Em muitos casos, não nos contentamos com as promessas de Deus para nossa vida e começamos a colocá-Lo em uma negociata, colocando condições para aplicar nossa fé.

 "Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei!"

Vamos enchendo nossa relação e nossa oração de "Se's" (SE eu arrumar uma namorada(o), SE eu conseguir um trabalho, SE eu passar no vestibular, SE eu ganhar na loteria, SE eu emagrecer, SE eu passar naquela matéria, etc.) como se nos bastássemos e não dependêssemos do amor e misericórdia divinos, como se os planos dEle fossem menores que os nossos.  Não sei quanto a você, mas das vezes em que tentei fazer as coisas por mim, não consegui muito progresso e em boa parte das vezes "quebrei a cara", me decepcionei, me atrapalhei e é nesse ritmo que as coisas seguem quando nossa fé não é colocada em prática, quando tentamos fazer as coisas ao nosso bel-prazer. 

Somos convidados a manifestar nossa fé, ou melhor, somos desafiados a isso atualmente. Muitos acontecimentos nos inspiram descrédito, decepção, desapontamento, desesperança, nos levam a querer entregar os pontos, chutar o pau da barraca, independente da realidade que se aplique este sentimento, muitas vezes é essa a vontade que nos toma. Manifestar a fé é perceber-se amado e escolhido por Deus para estar próximo dEle, como outrora os doze discípulos foram escolhidos. Hoje, na realidade em que se encontra, você é chamado se aproximar ainda mais e a tocar as mãos e o lado do Ressuscitado, a experimentar verdadeira e continuamente este Amor que não conhece limites para amar.

Acreditar no verdadeiro Amor e propagá-lo é revigorar a fé de forma prática, pois ao nos ouvirem dizer: "Vimos o Senhor!", "Experimentamos o Seu Amor!" e à medida que nossas atitudes forem coerentes com nossa fala, pela ação do Espírito Santo, conseguiremos alcançar novos "Tomé(s)" e aproximá-los do lado aberto do Ressuscitado, para que possam tocá-Lo e reaver a fé, reacender a chama e retornar à vida! O mundo anseia por uma nova experiência de Amor verdadeiro e nós somos arautos deste amor, é missão nossa anunciar com a voz, a palavra e a vida, de forma incansável. 

Música: Tomé
Davidson Silva

Por muito tempo não acreditei
Me escondi, duvidei
Se tudo ao meu redor era ausência tua
Já não ouvia mais a tua voz
Só acreditarei se eu tocar
Teu lado aberto e sentir pulsar
A alegria dos que creem em Ti
Poder ouvir tua voz dizendo-me

Põe aqui tua mão, torna-te um homem de fé
Toca o meu coração e o medo se vai
Eu voltei para ti, por tanto te amar, toca o meu
Coração, eu sou a tua paz



domingo, 12 de julho de 2015

Gestando Esperança

Vós, que temeis o Senhor, esperai em sua misericórdia, não vos afasteis dele, para que não caiais;
Vós, que temeis o Senhor, tende confiança nele, a fim de que não se desvaneça vossa recompensa.
Vós, que temeis o Senhor, esperai nele; sua misericórdia vos será fonte de alegria.
Vós, que temeis o Senhor, amai-o, e vossos corações se encherão de luz.
Considerai, meus filhos, as gerações humanas: sabei que nenhum daqueles que confiavam no Senhor foi confundido.
Pois quem foi abandonado após ter perseverado em seus mandamentos? Quem é aquele cuja oração foi desprezada?” (Eclesiástico 2, 7-12)
Partindo deste texto bíblico, gostaria de escrever um pouco sobre a espera. Uma palavra tão falada ultimamente, hoje mais que uma palavra, um propósito, uma “filosofia de vida”. Vejo muitas pessoas dizendo que estão “esperando no Senhor”, mas o que é esperar? Até onde vai essa “espera”?  Esperar o que? Quem? Quando? Onde? Já parou para pensar sobre isso?
Segundo o dicionário: “Ficar em algum lugar até que chegue alguém ou alguma coisa que se tem como certa ou provável; Aguardar; Contar com; Ter esperança; Supor, ter satisfação em acreditar; Confiar.”, são significados de esperar, que nos conduzem à noção de que esperar é verbo que demanda paciência e resignação da parte de quem espera, vai além de um tempo ou estágio, pois tem como objetivo nos aproximar de nós mesmos e da essência que é o Amor!
O tempo de espera não é uma condição em si para se chegar a um relacionamento, ou seja, embora seja um tempo necessário a se vivenciar e de grande crescimento, não basta dizer aos “quatros ventos” que você está neste tempo, bem como não adianta vivenciá-lo de qualquer forma e achar que “OK, Senhor! Estou pronto! Pode enviar meu José (ou minha Maria). Amém!” Nossa espera, quando bem vivida alcança o outro, quando algumas questões em nós foram resolvidas, curadas e amadurecidas; mais que um processo externo, este tempo é primeiramente uma vivência pessoal, um tempo de olhar novamente para si, muitas das vezes até juntar os “cacos” do que sobrou, optar por um novo caminho, tempo de reunir forças, dar o último “gás” em prol de quem realmente vale a pena: “você”, com a ajuda de quem mais te ama nesse mundo: Deus. 
Quanta riqueza este tempo pode nos proporcionar!
O tempo de espera faz de nós “gestantes da esperança”, pois há em nós amor e força necessários para transformar o mundo a partir da nossa decisão de viver segundo a vontade de Deus, porque Ele deu-nos a possibilidade de realizar os sonhos que Tem para nós. Gestar a esperança é cuidar e nutrir o amor em nós, é deixar-nos encontrar por Deus e vivenciar Sua misericórdia, perceber que os Seus desígnios a nosso respeito são de vida e reconhecer que Seu Amor nos foi dado como dádiva para nos dignificar.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Castidade no Matrimônio


Já dissertamos por aqui, no post Que tal um desafio?, sobre o sentido da castidade em seu amplo sentido. Hoje queremos falar  de castidade no Matrimônio...

A castidade é o chamado para todo cristão, segundo seu estado de vida. No Matrimônio, a vivência conjugal reflete a vontade de Deus para dois fins: a procriação e o bem dos cônjuges. Desta forma, a virtude da castidade, que é fruto da presença do Espírito Santo na vida, conduzirá o casal a bem viver um para o outro, na doação e entrega total ao amor celebrado no altar. A fidelidade, o uso correto da sexualidade e o zelo, sabendo respeitar um ao outro são alguns efeitos que a castidade produz na vida a dois.

Como não recordar então as palavras fortes e claras do Arcanjo Rafael a Tobias, antes de este desposar Sara?

'O anjo respondeu-lhe: Ouve-me, e eu te mostrarei sobre quem o demônio tem poder: são os que se casam, banindo Deus de seu coração e de seu pensamento, e se entregam à sua paixão como o cavalo e o burro, que não têm entendimento: sobre estes o demônio tem poder.' [Tobias 6, 16-17]

Ou seja, não há amor verdadeiro e feliz na vida matrimonial se não se vive a castidade, que respeita o mistério da sexualidade e o faz convergir para a fecundidade e a entrega. Não há amor se não há Deus como centro dessa relação. Não há amor se não continuarmos a dominar nossas paixões. A castidade vivida a duras batalhas na vida de namorados segue conosco nessa nova fase! Ela é imprescindível para bem viver o tempo que virá. Mas agora muda a maneira de vivê-la...

Afirma o Catecismo (2367-68): 'A fidelidade exprime a constância em manter a palavra dada. Deus é fiel. O sacramento do Matrimônio faz o homem e a mulher entrarem na fidelidade de Cristo à sua Igreja. Pela castidade conjugal, eles testemunham este mistério perante o mundo. Um aspecto particular desta responsabilidade diz respeito à regulação da procriação. Por razões justas, os esposos podem querer espaçar os nascimentos de seus filhos. Cabe-lhes verificar que seu desejo não provém do egoísmo, mas está de acordo com a justa generosidade de uma paternidade responsável. Além disso, regularão seu comportamento segundo os critérios objetivos da moral.'

No altar, direi: 'E te prometo ser fiel...', promessa feita diante dos amigos, do padre, mas no altar e na presença dEle. Me comprometo a separar tudo que sou para doar ao meu noivo, é reservar o que tenho de mais precioso aquele que se mostrou digno de tal entrega. A castidade é fruto do doar-se. Ela nos conduz a fidelidade, quando nos ensina o domínio dos sentidos e o domínio do coração. A exclusividade não pode ser um peso. Ela é resultado de ter encontrado alguém tão especial para dividir a vida. E para ser verdadeira deve nascer no interior e governar cada pensamento, cada sentimento da pessoa. A verdadeira fidelidade é um voto feito a Deus, uma consagração da sexualidade.

Em sua exortação apostólica 'Familiaris Consortio', São João Paulo II afirmou a totalidade da doação mútua que deve ter o casal: 'esta totalidade, pedida pelo amor conjugal, corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável, que, orientada como está para a geração de um ser humano, supera, por sua própria natureza, a ordem puramente biológica, e abarca um conjunto de valores pessoais, para cujo crescimento harmonioso é necessário o estável e concorde contributo dos pais. Assim sendo, todo ato que vise por vias artificiais impedir o fim procriativo do ato conjugal, é grave ofensa a Deus, por desvirtuar o fim primordial desta união, impresso pelo próprio Deus desde a criação, que é a geração de filhos.'

Entende a grandeza desse assunto? A vivência da castidade matrimonial implica em saber viver o dom da sexualidade e estar aberto aos filhos. Não ache que após a troca de alianças tudo é permitido e que não há necessidade de manter o relacionamento casto! Não! Esteja atento a exortação feita pelo Arcanjo. Não queira ser como o cavalo ou o burro... Nesta nova fase, uma das facetas da castidade é compreender que o outro não se tonou nosso objeto, o conjugue não é uma fonte inesgotável de prazer. O sexo deve ser doação! Deve ser para tornar o outro realizado. Sendo vocação, a nossa entrega ao esposo é uma representação terrestre da nossa entrega ao próprio Deus! É ato sagrado! É ato de vida! Na vida sexual, a realização do outro é nosso dever. Por isso, vivemos a sexualidade não para nós, mas para o outro. Nessa entrega está nossa realização. Doar é verbo eterno no amor!

Mas ao me doar, eu entrego tudo que sou e tenho. E meu marido precisará num ato de amor aceitar esse meu tudo. Ele precisa acolher minhas emoções, fragilidades, desejos, limites, meu corpo...  minha fertilidade. Por isso, um casal que se fecha aos filhos (usando métodos contraceptivos, por exemplo) está rejeitando um dom existente no outro. Não se doam por completo e, por isso, não vivem uma castidade real...  Para São Josemaria Escrivá, cegar as fontes da vida é um crime contra os dons que Deus concedeu à humanidade e uma manifestação de que a conduta se inspira no egoísmo, não no amor. As relações conjugais são dignas quando são prova de verdadeiro amor e, portanto, estão abertas à fecundidade, aos filhos.

Então teremos filhos a cada 9 meses? Não, meu bem. Deus é tão doce, tão bonito que concedeu ao casal a fertilidade em um curto período mensal. Assim sendo, Ele permitiu que fosse possível a vida sexual nos outros dias e fases sem a geração de um novo filho. Basta que saibam conversar e se conhecer! Conhecendo o corpo feminino, marido e mulher podem conscientemente e prudentemente planejar o espaçamento entre o nascimento dos filhos. Ao conhecer o meu corpo e viver comigo a beleza da castidade, meu marido compreenderá os dias em que a relação não será possível. Mas, é necessário que os dois estejam mergulhados na vontade de Deus, para que a vivência e compreensão disso tudo seja verdadeira e feliz.

Indo um pouco além, Deus concedeu ao homem o dom da medicina que através de estudos nos permite conhecer mais sobre a fisiologia humano, nos proporcionando um método natural de planejamento familiar, baseado no amor e companheirismo: o método Billings!

Quer saber mais sobre ele? Em breve trataremos aqui no blog!

Por hoje, peçamos a Deus a graça de bem viver a castidade em todas as fases da vida.
Que o Arcanjo Rafael venha nos admoestar sempre que ameaçarmos a nos entregar as paixões.
Que assim como Tobias, sejamos obedientes as ordens do céu.
Que São José, pai da castidade, interceda por nós.

sábado, 4 de julho de 2015

De copo cheio e coração vazio...

Estava numa festa com amigos e dentre tantas músicas que tocavam ouvi uma cujo refrão diz: “... De copo sempre cheio e coração vazio, ‘tô’ me tornando um cara solitário e frio...”. Até então nada fora do comum. Uma música amplamente conhecida no cenário nacional, como tantas outras que haviam tocado e outas que viriam a tocar. Mas num posterior momento de observação pude notar o quanto aquela letra era cantada com propriedade pelas pessoas que ali estavam, inclusive por mim, talvez pelo grande sucesso que a referida música tem feito atualmente. Mas será que é só isso?
Analisando com um pouco mais de profundidade não é difícil concluir que em alguns aspectos esta música reflete a realidade de muitos que, de fato, encontram-se de “copo cheio e coração vazio”, mas não quero com isso reduzir tal reflexão a uma questão meramente afetivo-emocional, como sugere a canção, seria muito pouco diante do realmente podemos questionar.
Para início de conversa, através da metáfora do “copo cheio” gostaria de fazer alusão a tudo o que toma nosso tempo, energia, emoção, atenção, “esvaziando nosso coração”. Agendas cheias, cabeças cheias, vidas cheias e porque não o copo cheio, literalmente?! Muitos problemas, compromissos, projetos, promessas, desilusões e expectativas acabam por tomar-nos de quem realmente somos. O barulho e tamanha movimentação de uma vida cheia são um ótimo esconderijo para quem foge do encontro consigo e daí torna-se comum encher-se de coisas a fim de adiar este encontro. Ostentam-se rotinas agitadas, vidas sociais badaladas, luxo, baladas, currículos, influência, corpos esculturais e notoriedade, mas e o coração, como está? Esta é a questão! Quem é e como está a pessoa por detrás de tudo isso?
Em tempos de total exposição de nossas vidas através das diversas redes sociais, nas quais fazemos nada mais, nada menos que uma autopromoção de nossas personas, me questiono: Somos quem e o que ostentamos? Parafraseando Antonie de Sain-Exupéry, em O Pequeno Príncipe, que diz: “O essencial é invisível aos olhos”, levanto a questão: O que nos é essencial? O que determina, de fato, a essência do que somos? O que apresentamos: nossa verdade ou uma personagem de fácil aceitação geral?


Na condição de filhos de Deus somos, fomos criados à imagem e semelhança do Amor e para Ele vivemos, em Sua busca nos encontramos desde o momento em que nos entendemos por gente. Cada um buscando da sua forma, com o seu jeito, usando do livre-arbítrio a nós concedido para alcançar esta meta, o que me leva a conclusão de que nosso coração se preenche à medida em que nos aproximamos daqueles nos "devolvem" a  nós mesmos, consequentemente nos aproximando de Deus. Na minha opinião a verdadeira ostentação é ter ao nosso lado, pessoas que nos aceitam, acolhem e amam por quem somos de fato, que marcam presença nas tempestades, quando o “copo” está quase transbordando, pessoas que mesmo diante de nossos defeitos, preenchem nossa vida e coração, aproximando-nos assim, de Deus. A verdadeira ostentação é ter ao nosso lado alguém que nos conduz a Deus.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

De joelhos


Quero escrever sobre mim. Mas para você. Sobre nós. Sobre a beleza de ser mulher. Sobre a grandeza de ser homem.

"Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou." (Gên 1, 27). Segundo São João Paulo II em sua carta apostólica 'Mulieris dignitatem', a criação do homem é o ápice de toda a ordem criada, coroa toda a obra da criação. No inicio, vendo que não era bom que o homem estivesse só, Deus o concedeu uma auxiliar: a mulher, chamada desse modo à existência, é imediatamente reconhecida pelo homem "como carne da sua carne e osso dos seus ossos" (Gên 2, 23).

Desde o início aparecem como unidade, isto significa a superação da solidão originária, companheira da vida, com a qual o homem pode unir-se como a uma esposa, tornando-se com ela "uma só carne" e abandonando por isso seu pai e sua mãe. Juntos, homem e mulher confirmam o sentido integral da própria humanidade.

Compreende que somos sagrados? Que a mulher é um tesouro dado ao homem para ser cuidada?  E que a mulher é auxiliar não apenas no campo físico, mas para fazer dele melhor, para ajudá-lo a se compreender e construir. Mulher é mistério a ser revelado, por causa da sua grandeza, não é fácil de ser revelado, mas merece ser buscado. Somos chamadas ao mistério e não a exposição. É preciso assumir esse papel, assumir tua feminilidade, tua sensibilidade, se permitir ao cuidado. E cuidar para ser instrumento de santidade aos homens.

Ao homem foi entregue o mundo para que cuidasse e a mulher para que conduzisse. Vocês homens tem a grande missão de fazer com que aqueles que o Senhor os destinou cheguem até Ele. Foram feitos para a luta, Deus os concedeu coragem e força. Atualmente, é exigido de vocês a coragem para vencer a atual crise da masculinidade, é necessário reassumir o papel de condutores dos que o cercam ao céu. É preciso reorientar-se para ver a mulher como teu presente, como teu sagrado, imagem e semelhança de Deus.

Vivo um momento mágico na minha vida: vou me casar! Em menos de 18 meses a promessa de Deus de viver o céu na terra se fará na minha vida, meu namoro se tornará sacramento... E como toda mulher, essa é uma fase de ansiedade e preparativos, mas de uma beleza imensurável!

Sou do tipo que gosta de saber o 'por que' de tudo. Por que noiva usa branco? Por que tem festa? Por que tem que ser de salto? Por que? E no meio desses tantos, me perguntei: por que o pedido de noivado é feito de joelhos? Achei que não haveria resposta, que a explicação era simples... Eis que me deparei com uma reflexão bonita e profunda... Que me recordou do livro do Gênesis...

Fazemos genuflexão na Igreja, e em frente de reis e rainhas, mas por que um homem faz o mesmo gesto diante da mulher a quem ama?  E por que mantemos essa tradição?

Descobri que a origem dessa tradição é incerta, mas já se faz há séculos. Nós fazemos a genuflexão, colocando um joelho no chão, como sinal de respeito pelo tabernáculo onde está a Eucaristia. Os cavaleiros se ajoelham diante do rei quando vão receber alguma homenagem, e quando se apresentam demonstrando respeito e honra à realeza. Na guerra, o exército vencido se ajoelha diante do exército vencedor da batalha em sinal de rendição.

Respeito. Honra. Rendição. Submissão. Essas são as razões pelas quais o homem se ajoelha ao pedir em casamento. Em sinal de respeito, o homem se curva em um ato de humildade diante da mulher com quem deseja passar a vida toda...

Mais ainda! Há ainda outro significado! Quando está ajoelhado, o homem está na altura do ventre da mulher, onde está o santuário da vida! Ele está honrando o corpo dela, e honrando a criação de Deus, que merece ser venerada. O homem está se rendendo e comprometendo o resto de sua vida a amar sua esposa. Ele está entregando sua solteirice e entrando na paternidade ao se comprometer na criação dos filhos com ela, e em permanecer fiel a ela em todas as coisas.


Em breve eu ficarei noiva! E cada vez que compreendendo o tesouro que Deus nos deixou, na relação homem e mulher, em cada pedacinho, em cada gesto. Quanto mais vou descobrindo o divino dessa relação, eu sou capaz de amar mais e melhor. E no instante que o meu namorado repetir esse gesto, mais do que a emoção de me tornar noiva dele, eu vou me recordar do sagrado que vivemos, quando com um joelho no chão, ele faz dom de si para mim.

"Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne." (Gên 2,24)